Já espumou? Pois agora é hora de falar de quem tem alguma noção do que está fazendo e de três dos maiores diretores dos nossos tempos, esses sim, bons de verdade.
.
- Vicky Cristina Barcelona -
Cinema é a vida de
Woody Allen, sem isso ele provavelmente cairia duro no chão. Nenhuma história é fraca o suficiente, nenhuma idéia passa batida. Desde os anos setenta ele lança quase um filme por ano. Os poucos anos em que ele não dirigiu um, são compensados pelos outros em que ele dirigiu dois ou três. Não só isso, ele escreve a maioria de seus roteiros e domina a técnica como poucos, atua e participa de várias outras produções e ainda sai tocando clarinete com bandas de jazz. Isso que ele tem
73 anos. Suas quedas são tão constantes quanto suas espantosas recuperações. De ano em ano algum crítico insatisfeito clama a volta de Woody Allen. Nos ultimos tempos o diretor foi dar uma passeio pela europa. Em sua primeira parada, na Inglaterra, fez um clássico, um filme divertido e um qualquer nota. Cansado do clima ruim e da comida pior foi para ensolarada Espanha e me saiu com esse
Vicky Cristina Barcelona, uma comédia romântica deliciosa. Com uma atuação irrestível de
Penelope Cruz um charmoso Javier Barden e com
Scarlett Johansson, esse presente de deus para a humanidade, o filme é divertido, inteligente, bem escrito, até quando é falado em espanhol ('Habla Inglês María Elena!!' é clássica), e tem um final ousado bem digno de Woody. Esse ano ele volta para sua segunda paixão
NY. Vamos ver até onde ele aguenta...
.
Nem vou comentar sobre a fidelidade histórica ou sobre as atuações perfeitas, especialmente de Frank Langella. Frost/Nixon tem uma cara mais documental, mas é um filme absurdamente bem escrito, com espaço até mesmo para comédia sim, e é simplemesmete de uma classe invejável. A direção de Ron Howard melhora a cada filme mais sério que ele faz, os ângulos e movimentos de foco são de mestre aqui. É tudo questão de encontrar um roteiro certo que ele tem toda condição de construir uma obra-prima. Aqui ele passou bem perto.
.
- O Curioso Caso de Benjamin Button -

O diretor
David Fincher é tudo que Danny Boyle gostaria de ser e nunca será. Criado em meio a comerciais e videoclipes, apaixonado por literatura pop e quadrinhos, ele sabe exatamente o tom certo para colocar em seus filmes sem nunca forçar a barra. Se uma música do
Pixies toca em uma cena, ela está ali por um motivo muito maior do que para parecer antenado. Sabe trabalhar com adptações e materiais originais e pode ir do visceral de
Seven, ao rebelde ultra-moderno impactante de
Clube da Luta para o clássico de Zodiaco, até ao lírico
Benjamin Button. Tem total domínio de técnicas inovadoras, mas nem por um instante deixa isso tomar a linha de frente da história. Só no quesito efeitos especiais Benjamin Button foi revolucionário em vários aspectos, mas talvez assistindo ao filme você nem perceba que eles estavam lá. Sutileza é uma das palavras chaves no dicionário de um verdadeiro mestre e Fincher não tenta enganar sua platéia. Não pretende ser algo que não é. Com Benjamin Button ele claramente estava mirando em reconhecimento acadêmico por seu trabalho (Coisa pouca para quem já fez um dos melhores filmes de todos os tempos). A história épica do homem que rejuvenesce no mundo em que todo mundo morre não poderia ter sido contada por ninguém melhor. Calibrando o tom poético, inédito em seu trabalho, ele faz um filme sobre morte, perda e vazio que acaba por se tornar um filme sobre vida (na teoria). Com um punhado de cenas de beleza dolorosa e atuações magníficas, o resultado da sessão é definitivamente diferente para cada pessoa. Para mim foi triste, mortalmente triste...
.
- The Dark Knight -
Saiam da frente vermes e pseudo-cults é hora de mostar do que a terrível maquina dominadora de mentes do entretenimento yankee é capaz de produzir quando um mito assume controle total.
Christopher Nolan pegou um personagem que já era capenga quando
Tim Burton fez seu filme nos anos 80 girou tudo e criou uma obra inspiradora, moderna e revolucionária, uma aula de como se fazer cinema. Ah meu deus, mas é um filme do
Batman! Pois fuck it. Nolan deixa de lado qualquer tipo de fidelidade mediocre açucarada e vai de
Arthur Penn,
Howard Hawks e Fogo Contra Fogo, tudo jogado em uma Gothan City alegórica devastada pela fúria caótica e homicida personificada pela interpretação histórica de
Heath Ledger do Coringa. Quando luz e trevas se colidem em
The Dark Knight as áreas cinzas resultantes trabalham com conceitos de justiça, vingança e caos com uma inteligência que você não espera em um filme desse tipo. O roteiro de Nolan e seu irmão
Jonathan é, no mínimo, genial, colocando camadas e camadas de profundidade e elevando o suspense insuportável até o ponto em que você simplesmente desiste de tentar prever o próximo passo e, mesmo em um filme de herói, simplesmente passa acreditar na possibilidade de que todo mundo pode terminar morto e que qualquer coisa pode acontecer, o que, vamos falar a verdade, é muito, mas muito difícil de se fazer. A fotografia é brilhante e o trabalho com o
IMAX é
the way of the future. Na verdade não tem um aspecto técnico em que o filme seja menos que impecável. A edição nervosa e a direção de Nolan, que opta pelo estilo CG é para bundões, nunca esqueçe que tem uma platéia para agradar e ao mesmo tempo em que choca não apela em nenhum momento. Você não repara, mas embora pareça ser violentíssimo no filme não tem sangue, não tem fratura, não tem corpos queimados, nada. A idéia da maldade é muito mais assustadora do que ela própria? Pode apostar que sim. Não é a tôa que ele brigou tanto para manter o título original do filme assim. Um filme genial como esse, capaz de misturar arte e entretenimento como poucas vezes foram vistas, não é um Batman qualquer, é The Dark Knight. Perfeito.
.
- The Wrestler -
Darren Aronofsky tem uma missão difícil na vida: fazer um filme ruim. É difícil errar quando você é um gênio (eu sei, eu já tentei). Não precisa nem mesmo ser muito ruim, somente o suficiente para mostrar que ele não veio de outro planeta e que consegue apontar uma câmera para alguma coisa e não transformar em uma obra-prima. Um filme sobre o 3,14 outro sobre drogas, mais um sobre vida eterna e nada, ele deve ter pensado: "Tudo bem, não vou escrever o próximo, vou pegar o roteiro desse cara aqui e fazer um filme sobre luta livre com o
Mickey Rourke, esse vai ser péssimo". Tempos depois Rourke revive para o cinema, luta livra nunca pareceu tão bacana e
O Lutador é mais um trabalho de gênio. Pobre Darren...
.
Honestidade é a palavra chave. O Lutador não força seu sentimento, não apela para seus sentidos, não inunda sua percepção. Darren não guia seu julgamento pela jornada de
Randy Robinson e nem tenta tornar seu personagem agradável. Ele é o que é e assim também é a vida. O filme permite que você veja o que você preferir ver enquanto Randy destrói seu corpo e seus relacionamentos, se arrasta solitário e melancólico na sombra de seu próprio passado, tenta reconstruir sua existência somente para ver o mundo lhe acertar com cada vez mais dor e finalmente abraça com todas suas forças a única coisa na vida que lhe dá uma chance de ser alguma coisa maior do que ele é, mesmo que seja um fingimento, mesmo que seja por alguns instantes. Randy é qualquer um, pode estar ao seu lado no ponto de ônibus ou te servindo na lanchonete. Ele é representação da vida vazia, sem propósito e solitária que espera todos nós. Os interesses nos unem, mas eles também eventualmente nos separam. Todos nós somos ou seremos relíquias melancólicas de uma época morta. Que pode ser destruída em instantes até mesmo com um toque de guitarra. Se
Kurt Cobain estragou tudo, como diz Randy em uma cena, de certa forma ele também construiu tudo de novo. E nessa roda todos nós ficamos para trás.
.
O grande barato é que O Lutador não é um filme para baixo, muito pelo contrário é até rápido e as vezes violento. Ele segue exatamente essa ânsia de se recusar em aceitar, de não permitir ser esquecido, de lutar. A interpretação de Rourke é tocante e precisa sendo ele uma representação do próprio papel. Mas não se engane pensando que tudo que ele faz é interpretar a sí mesmo. Seu trabalho vai muito além e carrega ainda mais a alma do filme. E alma é algo que não se pode forçar, não se pode fingir, não se pode buscar num país exótico e embalar em um papel bacanão. Vem da honestidade. Brutal, que te acerta como um soco na cara, mas aí sim, se você conseguir entender, pode te dar esperança de verdade.